ARTIGOS DE H. SABRINA GLEDHILL
VOCÊ ACEITA UMA OVERTABLE?
Há pouco tempo, chamaram minha atenção ao website
do Departamento de Turismo de um país latino-americano. Escrito
em seu próprio idioma, o espanhol, fornecia também versões
em inglês e português. A língua de Shakespeare encontrava-se
num estado lastimável ("renovable visas" e outros tantos), mas o
que mais me impressionou foram as reações de brasileiros
quando testemunharam o massacre da língua de Camões. Variavam
do escárnio à raiva. Aí, me perguntei, será
que a maioria dos brasileiros sabe como e quanto o inglês e o espanhol
são massacrados nas versões realizadas em seu país?
Existem mais pessoas no mundo que falam o inglês como segunda
língua do que ditos nativos. Portanto, aqueles que "nascem" falando
o inglês não só perdoam sotaques (eufemismo para má
pronúncia e erros de gramática) como acham cute (bonitinho)
e até románticos ou sexy, por exemplo, nos casos de Sônia
Braga ou Antonio Banderas. Mas, convenhamos, uma grande empresa ou órgão
do governo não ficaria nem um pouco contente se um relatório
anual ou livro de arte seu, que representa um farto investimento na sua
imagem, fosse considerado, na melhor das hipóteses, cute.
Se quiserem ser levados a sério e até evitarem o ridículo
no mercado globalizado, é preciso certificar que o seu inglês
seja "para inglês ver". Por que isto é difícil?
Para a maioria das pessoas físicas e jurídicas,
contratar um tradutor para verter um texto é parecido com um cego
ou míope que contrata alguem para pintar sua casa. Como é
que ele pode certificar que seu domicílio foi pintado de azul claro,
como combinaram, e não de roxo ou rosa choque? Naturalmente, a resposta
é óbvia: contratando uma pessoa de confiança e conferindo
com terceiros que enxergam bem. Ao contrário, só descobrirá
o mau resultado quando ouvir as risadas e até piadas daqueles que
passam em frente à casa.
Mas isto é apenas uma face da moeda. O tradutor seria melhor
comparado a um artista plástico que a um pintor de paredes. O artista
pode ser daqueles que "pintam pelos números", retratando cada feição
do modelo com fidelidade fotográfica, mas deixando de mostrar o
conjunto e até a alma da pessoa. Se tiver talento, experiência
e instrução, será daqueles que interpretam, recriam
e espelham o modelo, produzindo uma obra que é uma festa para os
olhos. Quando o tradutor se prende às palavras, o significado se
perde de vista. E muitas palavras são amigas da onça – por
exemplo, a palavra "azul" só pode ser vertido para o inglês
como "blue" quando, de fato, se trata de quadros, paredes etc. Os significados
que fogem do pé da letra são muito diferentes. Em outros
contextos, a palavra "blue" pode ser "triste" ("I'm blue"). Pode também
significar "pornô" quando se trata de cinema ("blue movies"). O comprador
que se cuide…
É necessário, portanto, um profundo conhecimento
das nuanças e da cultura da língua alvo, alem do idioma em
si. Infelizmente, muitos tradutores que fazem ótimas traduções
para o português tropeçam nas palavras quando realizam versões.
Certa feita, fui convidada a verter as legendas de um livro para o inglês.
Quando surgiu uma dúvida quanto à versão de um termo
no miolo (para manter a uniformidade), estranhei a resposta e o cliente
pediu que eu revisasse o livro inteiro. Estava um horror. No sentido figurado,
traduzia "sobremesa" como "overtable"! Como isto podia acontecer? O tradutor
apresentara um ótimo currículum, mas o trabalho estava pessimo.
Com muito trabalho e despesa, por parte do cliente arrasado, o problema
foi resolvido às vesperas da edição do livro. Desta
vez, a história teve um "happy ending".
Espero que tenha lançado uma semente de dúvida quanto
à qualidade das versões para línguas estrangeiras
produzidas no Brasil e na Bahia, salvo ilustres exeções.
Mas também gostaria de oferecer algumas soluções.
A longo prazo, sugiro a implementação de cursos de tradução
e um sistema de certificação profissional reconhecida em
todo o país. Na Inglaterra, os tradutores fazem uma prova e os aprovados
recebem um certificado ou diploma que serve para comprovar suas qualificações.
No Canadá, o profissional qualificado tem que ser bacharel em tradução.
Isto seria o ideal. Por enquanto, voltamos à metáfora do
cego e o pintor. Primeiro, o contratante deve pedir o currículum
e as referências do candidato; segundo, pede-se uma amostra, com
preferência, do trabalho a ser realizado, o que deve ser avaliada
por um terceiro isento e, naturalmente, qualificado.
Afinal, realizar uma boa versão ou tradução
é questão de bom conhecimento de línguas, boa redação
e, o que é fundamental, um profundo entendimento das culturas do
escritor e do leitor. Assim como o bom artista plástico precisa
de mais que pincel e tinta, ser bilingüe é só o começo!
TRADUTOR, TRAIDOR (OU TRAÍDO)?
O caro leitor já leu a Bíblia? Se a resposta é
sim, com certeza, tratava-se de uma tradução, a não
ser que domine o grego ou o aramaico. Esse texto sagrado dos cristãos
já foi vertido para quase todas as línguas conhecidas – e
algumas praticamente desconhecidas, o colecionador e amigo Cid Teixeira
que o diga. Somente na língua inglesa, os fiéis e estudiosos
podem escolher de uma gama de versões, que vai da poética
tradução encomendada pelo Rei James, a várias outras
ditas atuais e até políticamente corretas.
De outro lado, qualquer brasileiro que pretende estender seus conhecimentos
e cultura para além da rica literatura de sua própria língua
tem duas alternativas – tornar-se poliglota ou entregar-se às mãos
de um tradutor para ler o repertório obrigatório de obras
clássicas da literatura universal, como Shakespeare (inglês
antigo), Tolstoi (russo), Victor Hugo (francês) e Garcia Marques
(castelhano).
Mas não são apenas aqueles que se dedicam às palavras
divinas ou à cultura que dependem dessa mal-compreendida classe,
a dos tradutores. Quase tudo que se passa no telão e até
na telinha precisa de legendação ou dublagem. Além
de romances, gibis, notícias do mundo publicadas nos jornais, colhidas
de agências internacionais como a AP ou a Reuters. Enfim, uma grande
parte do dia a dia de todas as classes sociais e todos os níveis
intelectuais depende da arte e do ofício da tradução.
Então, como é que, ao menos no Brasil, essa tremenda responsabilidade
é entregue a uma classe pouco valorizada? (O tradutor é considerado
um reles “técnico”; não chega a ser visto como um profissional
de nível superior.) São artistas e artesãos que, mesmo
quando devidamente qualificados – a estas qualificações chegaremos
em breve – geralmente carecem das mínimas condições
necessárias para realizarem um bom trabalho. Em outras palavras,
precisam de tempo suficiente para pesquisa e remuneração
compatível com as exigências do dia de hoje, porque o tradutor
bem equipado, no mínimo, precisa de um micro-computador tipo Pentium,
várias modalidades de software permanentemente atualizadas, telefax,
telefone – no mínimo duas linhas, uma para voz e outra para Internet
e telefax – e acesso à Internet, já que o correio eletrônico
vem superando os meios tradicionais de recebimento e entrega de trabalhos.
Quanto às pressões de tempo, nenhum exemplo é melhor
do que o tão criticado tradutor de filmes. Convenhamos, por exemplo,
que na legendagem e na dublagem frequente- e famigeradamente erram, traduzindo
o “sim” como “não” e até “perna” como “velório”! Mas
nem por isso posso criticar a estes colegas (sim, eu também pertenço
a esta tão desprezada classe), porque sei que o trabalho deles (ou
delas) geralmente é realizado no tempo necessário para passar
o filme!
Frequentemente, e esta situação não se limita ao
Brasil, a pessoa física ou jurídica que precisa de uma tradução
acredita nos seguintes mitos:
1. o primo de Fulano pode fazer o trabalho muito bem, porque cursou
dois anos de “High School” nos Estados Unidos na década de 80, ou
passou três anos na Inglaterra quando criança e “fala quase
sem sotaque.”
2. um trabalho realizado em três meses a oito mãos por
uma equipe multidisciplinar pode ser traduzido por uma pessoa em três
dias (ainda mais se for pelo primo de Fulano!).
3. um bom tradutor pode realizar seu trabalho na hora, até por
telefone, sem dicionários ou outras fontes de referência.
4. um tradutor competente se encontra em qualquer lugar (apesar de
definirmos como capaz o tradutor que possui um conhecimento profundo das
duas línguas, tem nível superior, pelo menos na língua
alvo; tem excelente capacidade de interpretação de textos,
trabalha rápidamente e com precisão, dispõe de equipamentos
de ponta e sempre cumpre os prazos nem sempre negociados).
5. quem sabe traduzir de uma língua para outra (digamos, do
português para o inglês) pode trilhar o caminho inverso (do
inglês para o português) com a mesma facilidade.
6. os tradutores em breve serão substituidos pela informática.
Somente quando esses mitos forem erradicados e os profissionais que
se dedicam à tradução como arte e ofício devidamente
respeitados, poderemos dizer que o tradutor, antes traído pelo preconceito
e a falta de informação, passará a ser um verdadeiro
aliado da comunicação, do bom entendimento e da cultura universal.
H. Sabrina Gledhill é inglesa, radicada na Bahia desde 1986.
Além de tradutora (com muito orgulho) e brasilianista, com Mestrado
na área de Estudos Latino-Americanos da Universidade de Califórnia
em Los Angeles – UCLA, também é Bacharel em Letras Inglesas
e Bacharel Internacional da ONU. Ao longo de sua carreira, traduziu para
o inglês várias publicações culturais e outras,
editadas no Brasil e no exterior. Antes de fixar-se no Brasil, trabalhou
como jornalista e editora nos Estados Unidos.
Artigo publicado no jornal A Tarde em 24 de julho de 1998
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